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Entrevista
Fernando Almeida

É preciso subversão na área da sustentabilidade

O entrevistado desta edição é uma das maiores referências em sustentabilidade no País. Com mais de 30 anos de experiência profissional nos setores empresarial, governamental e acadêmico, Fernando Almeida há anos vem disseminando o conceito do desenvolvimento sustentável. Tanto que, em 1997, arriscou o seu cargo no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) ao dizer que pretendia fazer um relatório de sustentabilidade das empresas. "Se você fizer e der problema, você está demitido. Agora, se for tudo bem, nós somos indiferentes", foi o que ouviu na época. Felizmente tudo deu certo. O engenheiro não só manteve seu cargo à frente do CEBDS, como continua abrindo espaço para a estratégia socioambiental.

Ambiente Urbano: Este mês, o senhor lança um livro que conta as experiências empresariais em sustentabilidade. Por que a escolha deste tema?

Fernando Almeida: No início desta década, eu comecei a escrever um livro chamado "O Bom Negócio da Sustentabilidade", que foi lançado durante a reunião de Joanesburgo, em 2002. Em 2007, eu lancei "Os Desafios da Sustentabilidade" e a minha percepção é que faltava no mercado [de latu-sensu] um documento que falasse das experiências empresariais. Nós vemos muitas experiências de ONGs, mas as empresas têm mais dificuldades em falar sobre este tema. A ideia foi produzir um livro que abordasse a questão da sustentabilidade com todos os seus dilemas, desafios e percalços. Esse livro praticamente fecha esse ciclo.

AU: Qual o critério adotado para a escolha das empresas?

Almeida: Este trabalho exigiu uma certa metodologia, principalmente para a escolha das empresas. Eu fiz um ranking baseado no Dow Jones Sustainability Indexes, na revista Exame e no próprio CEBDS [Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável]. Relacionei mais ou menos umas 150 e depois, por meio de um conselho de pessoas e instituições do ramo, do qual eu participei também, foram selecionadas aproximadamente 20 empresas. Cada membro do conselho determinou um critério para análise, levando em consideração a reputação da marca, com base na própria percepção que cada um tinha das empresas.

AU: Qual o diferencial desse trabalho em comparação aos outros feitos anteriormente?

Almeida: Este não foi um trabalho em nome do CEBDS, mas sim de Fernando Almeida. Outro ponto é que as empresas não deveriam dizer apenas o que era de seu interesse, elas teriam que falar também sobre as experiências que não deram certo, o motivo de não ter dado certo e como passou a dar certo, até porque isso é vida real. Isso estava na carta-convite enviada a elas e, dentro disso, algumas empresas acharam melhor não participar, o que é compreensível, por se tratar de um método inovador.
No entanto, eu não faria algo que fosse diferente disso. A partir dessa escolha, foi elaborado um questionário bem detalhado para a aproximação das empresas. O foco era conhecer a estratégia, o compromisso, a transparência, a relação com os stakeholders etc. Então, contratamos alguns jornalistas que, orientados por mim, fizeram um levantamento base. A partir disso, eu trabalhei o texto final.

AU: Dentre os assuntos abordados no livro, o que o senhor considera importante ser citado?

Almeida: Eu toco em dois assuntos que ainda são pouco comentados e que, na minha opinião, são os mais importantes desse momento. Um é a transição dessa economia - do desenvolvimento predador dos serviços ambientais, dos recursos naturais e do trabalho humano - para uma economia verde, responsável e sustentável. Ainda estamos muito longe disso e não temos muito tempo. E falo sobre outra questão muito fundamental também, que é a da adaptação. Hoje em dia, fala-se muito sobre sequestro de carbono, sobre mitigação, mas sabemos que vai aquecer, que vão ocorrer eventos extremos.
Tivemos o [furacão] Catarina, mas é como se ele não tivesse ocorrido. O governo não está fazendo nada, o setor empresarial ainda está pensando que isso é para os netos, e não é, acredito que ainda veremos boa parte desses eventos extremos.

AU: O que se vê, na prática, de atitudes sustentáveis das empresas?

Almeida: Eu vejo que elas estão incorporando a questão das três dimensões da sustentabilidade, que elas estão se abrindo a criticas, o que é bom, e estão mais ativas com seus stakeholders. No entanto, percebemos que o passo que ainda precisa ser dado é extramuros. 

AU: O livro será lançado este mês no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA). Há um motivo especial para ser lançado lá?

Almeida: A ideia do lançamento não é sentar na cadeira e ficar autografando os livros enquanto os convidados bebem vinho. Desta vez, o lançamento será com debates e o TUCA tem uma história interessantíssima, pois foi palco de importantes manifestações políticas e uma entidade que subverteu a ordem na época da Ditadura Militar.
Tocaram fogo duas vezes nesse prédio, mas ele subverteu e resistiu. Então, eu acredito que nós precisamos de subversão na área da sustentabilidade, pois quem não estiver com subversão e paixão incorporadas no seu dia-a-dia não é liderança própria para essa área. Quem estiver de acordo com a ordem, da forma como ela está hoje, tem alguma coisa errada.
O atual modelo de negócios da pesca, por exemplo, acaba com os peixes até 2040. Nós temos um problema sério em vários serviços ambientais relacionados à água, ao ar, à terra, com os desmatamentos, mudanças do clima, entre outros. Não dá para achar que a sua função enquanto uma grande liderança empresarial é pensar apenas no valor da ação, ou no número de empregos, e não é por aí.

AU: E o governo, como fica nessa história?

Almeida: No chamado mundo tripolar, o governo está muito atrás. Basta ver a resistência que o [Barack] Obama está enfrentando, dentro e fora dos Estados Unidos. Veja como o Brasil, infelizmente, ficou atrás na história do clima, nem meta apresentou e é o quarto maior emissor de CO2, o que não é concebível. O setor de ONGs está bem, está muito mais próximo do setor empresarial e essa é uma boa parceria, já que as ONGs precisam de recursos e o setor empresarial tem recursos. Agora, com relação ao setor governamental, é muito difícil.

AU: O que precisa para melhorar?

Almeida: Eu não acredito em responsabilidade social apenas, como não acredito em responsabilidade ambiental apenas. Eu só acredito quando os três imperam [equilíbrio social, ambiental e econômico]. As empresas devem pensar em criar um modelo de negócios responsável, que perenize o serviço ambiental, que distribua renda e que ele mesmo seja perene. Mas para se conseguir “catapultar”, a alavanca deve vir da política pública, o governo tem que entrar. No entanto, é preciso um governo potente! Um governo que baixa as taxas de importação para energia eólica - o que é ótimo -, mas ele baixa as taxas de chuveiro elétrico ao invés de reduzir as taxas de energia solar, transmite mensagens completamente antagônicas.

AU: E reduz impostos para vender mais carros.

Almeida: Pois é, ao invés de investir em transporte coletivo. É claro que em curto prazo isso dá votos, mas não é nisso que deve ser pensado. O que deve ser pensado, a curto prazo, é o problema do evento extremo. E os problemas estão ocorrendo agora, em esfera social, ambiental e econômica! O Amazonas está cheio de água enquanto o Pantanal enfrenta uma grande seca. No Rio de Janeiro já existe uma ruptura, não dá para a andar lá à noite, eu evito sair da Barra da Tijuca para a Zona Sul. Uma cidade que criou a Bossa Nova, o Cinema Novo, isso é inconcebível.
Essa não é uma mensagem pessimista, muito pelo contrário, senão não teria escrito esse livro, mas há necessidade de se encarar essas questões de uma forma séria. (Fonte: Revista Ambiente Urbano) 



Publicado em: 2/9/2009

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