
O Falamansa iniciou sua carreira há 10 anos, quando Ricardo Cruz, o Tato, decidiu participar de um festival de música da Universidade Mackenzie, em São Paulo. Tato buscou músicos que pudessem formar uma banda para participar do festival.
Nessa busca, ele encontrou Douglas Capaldo (o Alemão), André Canonico (o Dezinho) e Valdir do Acordeon, e assim nasceu o Falamansa que, até hoje, permanece com a mesma formação.
Nesta entrevista, Tato fala da paixão e envolvimento com as questões ambientais e sobre como o tema os motiva a querer levar adiante uma mensagem positiva, de cuidado com o planeta.
Ambiente Urbano: Vocês estão demonstrando em seus shows e nas músicas uma preocupação com o meio ambiente. Você poderia falar sobre isso?
Tato: A ideia de unir a musicalidade à conscientização ambiental sempre foi um ideal do Falamansa, mas que a gente não conseguiu concretizar antes por estar ligado a uma gravadora. Além disso, para fazer qualquer projeto ambiental são necessários recursos e a gravadora não tinha como conceder esses recursos; então, logo que nos tornamos uma banda independente, demos início a estes projetos.
No início, partimos do mais básico, que era fazer o encarte do CD em papel reciclado, o que, na verdade, não se trata nem de uma consciência ecológica, mas uma obrigação de se reciclar um material como o papel. A partir daí nasceram as ações de divulgação. Inicialmente, preparamos umas 300 mil sacolas para lixo, distribuídas em praias brasileiras, com o objetivo de divulgar o nosso novo trabalho. Foram 16 praias de três Estados brasileiros.
O segundo passo foi produzir um videoclipe, não só com o objetivo de divulgar a banda, mas também de levar informação para as pessoas. Esse videoclipe, chamado Segue a Vida, foi gravado dentro do Rio Tietê. Nós pegamos uma balsa emprestada de uma empresa de tratamento de água e esgoto e tocamos em cima dela, dentro do rio. Esse clipe teve uma repercussão muito boa, não só no Brasil, mas também no exterior. Teve um site que nos chamou de "Sex Pistols tupiniquim", pela nossa atitude. Isso para nós foi muito bacana, não só como divulgação, mas também por levar informação, pois este clipe não é muito exibido em canais de música. Ele é mais exibido em escolas estaduais, o que, para nós, é uma conquista muito maior do que um clipe musical somente.
AU: Todas as músicas do disco "Segue a Vida" têm esse viés ambiental?
Tato: O disco “Segue a Vida”, eu diria que é 70% voltado para a conscientização ambiental, não só nas ações, mas principalmente nas músicas. Tem a própria [música] Segue a Vida, que dá nome ao trabalho, que abre o disco com a seguinte frase: "de que valem os ouvidos se não houver atenção, de que valem os olhos sem belas paisagens?". Também tem a música Abençoe Este Planeta, que fala mais explicitamente sobre o tema ambiental, mas também se refere ao social. Na música Quebra Cabeças o refrão diz: "pode juntar pedaço por pedacinho que no final vai ter amor e carinho". Todo mundo pensa que estamos falando somente sobre o amor, mas eu quis também falar sobre a reciclagem.
AU: Vocês realizaram campanhas para apoiar a construção de cisternas em algumas cidades brasileiras. De onde surgiu esta ideia?
Tato: Este projeto é um pouco mais antigo, surgiu de uma festa junina que promovemos [Arraiá da Falamansa] e, como esta festa se popularizou muito e começou a gerar uma renda, nós tivemos a ideia de destinar essa verba para algo bacana. Este projeto já é realizado há sete anos e, no ano que vem, a gente realiza a construção de cinco cisternas no Piauí, com a ajuda do Rotary Club que é nosso parceiro na destinação da verba para as construções.
Como nosso estilo musical é totalmente ligado à musicalidade nordestina, nós resolvemos também realizar as nossas ações no sertão do Nordeste, que ainda sofre muito com a falta de água. Antigamente, a maior temática do forró era a denúncia da seca no Nordeste, por ser algo que poderia ser feito, mas ninguém fazia. Por isso, é muito bacana para nós poder fazer algo e soaria até falso eu escrever sobre isso e não vivenciar essa realidade. Com estas ações, a gente consegue fazer isso: essa é a nossa parte.
AU: Vocês também procuram incentivar o seu público a adotar ações solidárias, como no show de 10 anos do Falamansa, quando vocês pediram colaboração em alimentos?
Tato: Essa arrecadação faz parte de uma campanha chamada "Gincana da Solidariedade". É um evento gratuito. Não é um evento em que se pede um quilo de alimento para entrar, não há nada obrigatório; a pessoa leva se ela quiser. Eu acredito que desta forma há um estímulo para a solidariedade das pessoas, porque não se deve usar isso como ingresso, pois, se for assim, ninguém vai doar por solidariedade, apenas com a preocupação de entrar no show.
AU: Em sua opinião, as pessoas têm consciência da importância de sua participação para a melhoria ambiental e social?
Tato: Certa vez, aconteceu um fato curioso, que ilustra essa questão de consciência. A gente vende o nosso CD a cinco reais, e é um disco é feito em papel reciclado, um trabalho que tem uma intenção muito bacana e, mesmo recolhendo todos os impostos, a gente consegue manter um preço baixo.
Uma vez paramos em uma estrada e um rapaz me pediu um CD. Eu expliquei a ele tudo o que pagamos para produzir aquele trabalho e ofereci o disco pelo valor de cinco reais. Eu disse a ele que o disco era todo feito em papel reciclado, achando que ele aprovaria isso, então ele disse: "não tem problema, pode ser de papel reciclado mesmo". Ou seja, julgando que fosse algo ruim.
Então, essa história me fez perceber que muita gente ainda não tem essa noção de que a reciclagem é algo bom. Muita gente ainda acha que reciclagem é lixo, que é algo negativo. Por isso, é bacana a gente ter a oportunidade de transmitir essa mensagem de que a reciclagem é algo que favorece a todos nós.
AU: Você acredita que essa postura da banda, em ter essa preocupação ambiental, também pode despertar nos fãs a mesma consciência?
Tato: Eu acredito que o fã se espelha no artista, sim. Ele busca as atitudes do artista para também fazê-las futuramente. O Falamansa sempre transmitiu mensagens de alegria, de fé e de amor, e hoje, depois de 10 anos de existência, os fãs buscam isso no Falamansa e não buscam somente dançar forró. Eles buscam mensagens positivas. Tem gente que fala que saiu da depressão por ouvir determinada música; outros passaram por dificuldades financeiras e encontraram forças ouvindo nossas músicas; então, as pessoas já buscam isso, já buscam uma ajuda, é quase que uma musicalidade de autoajuda.
Por isso, da mesma forma que os fãs buscam mensagens positivas em nossas músicas, nós acreditamos que passar essa mensagem do planeta seja uma forma de transmitir algo a mais para os fãs, algo extremamente sério e importante. E quando a gente fala de conscientização ambiental, a gente não quer transmitir a informação mais amplificada da história, como aquecimento global e outros temas mais abrangentes. A gente quer passar a informação básica, como, por exemplo, não jogar o lixo no chão, ter cuidado com as praias, se preocupar com o seu entorno, tomar o cuidado de fechar o chuveiro enquanto se ensaboa, enfim, temas que estão inseridos no dia-a-dia das pessoas. Às vezes, as pessoas se preocupam tanto em falar do aquecimento global, da extinção de determinada espécie, mas se esquecem do básico.
Então, como o nosso público é a classe mais popular, é extremamente importante dar esse toque, das coisas mais simples, mas que fazem toda a diferença e que muita gente esquece. (Fonte: Revista Ambiente Urbano)