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Entrevista
Antônio Carlos Matarazzo

Mudança de hábitos já!

Autor do livro Aquecimento Global – a solução é você (Editora Millênio), o ambientalista Antônio Carlos Matarazzo especializou-se na gestão ambiental de grandes centros comerciais, sendo um dos responsáveis pela neutralização de 100% das emissões de carbono do Shopping Frei Caneca, na capital paulista.
Matarazzo, que atualmente prepara a realização da I Virada Sustentável do Brasil, prevista para acontecer em setembro, em São Paulo, defende que somente com a mudança de hábitos e costumes a humanidade poderá reduzir o impacto negativo que tem causado ao meio ambiente. Nos shoppings, por exemplo, os consumidores ajudariam muito na redução de resíduos se consumissem de forma mais consciente.

Ambiente Urbano: O senhor atuava na área médica. Como começou seu envolvimento com a preservação ambiental?
Antônio Carlos Matarazzo: Até 1993, eu era perfusionista (profissional que mantém a circulação cardiovascular do paciente por meio de aparelhos, durante as cirurgias), mas naquele ano eu decidi fazer uma viagem pelo mundo a bordo de um veleiro que eu mesmo construí. Uma das coisas que mais me chamaram a atenção, logo no início da viagem, foi a sujeira e a má conservação das ilhas brasileiras, promovida pelos próprios moradores. Eles não tinham informação sobre procedimentos de higiene e descarte correto de resíduos, e por isso jogavam lixo no mar, poluíam a água que mais tarde iriam consumir, mantinham banheiros comunitários a apenas três metros da fonte de água que consumiam... Encontrei esse cenário não só aqui, mas também em ilhas de outros países no mundo, o que me despertou o interesse por trabalhar com o meio ambiente. 

AU: Em que tipos de projetos ambientais o senhor atua no momento?
Matarazzo:
Eu participo do projeto Ilhas Brasileiras, que leva conscientização ambiental aos moradores de ilhas na orla do País, com o objetivo de neutralizar ou reduzir um pouco o impacto negativo que eu presenciei. Mas atualmente, a menina dos meus olhos é a realização da primeira Virada Sustentável do Brasil, prevista para acontecer em setembro deste ano, em São Paulo. Será um evento maravilhoso, que reunirá grandes multinacionais e órgãos do governo, levando informações sobre sustentabilidade para toda a população. 

AU: Como os shoppings podem auxiliar no combate à degradação ambiental?
Matarazzo: Em primeiro lugar, os shoppings devem reduzir seu consumo de energia e de água e a produção de resíduos. Hoje, se pegarmos um contêiner de lixo de um shopping, iremos descobrir que 70% do lixo descartado ali poderia ser reciclado ou reaproveitado. Outro grande vilão desses grandes centros comerciais é o ar condicionado, que libera gases de efeito estufa e consome muita energia.
Por isso, é preciso que os shoppings criem sistemas de gestão ambiental e se insiram no atual contexto de sustentabilidade. Uma maneira é conscientizar das pessoas que circulam nestes espaços, tanto os usuários como os lojistas e funcionários dos shoppings. 

AU: E como se faz isso?
Matarazzo: É complicado. Com os lojistas é mais fácil, pois o shopping é um condomínio de lojas e, como tal, tem regras que devem ser seguidas pelos condôminos. Já com os consumidores é mais complexo. Existem shoppings que recebem cerca de 25 mil pessoas por dia e não podemos abordá-los e exigir que separem o lixo produzido por eles, mesmo sabendo que se o consumidor de hoje estivesse despertado para a consciência ambiental, conseguiríamos reduzir a quantidade de resíduos de um shopping em até 35%.
Para ajudar o consumidor deve ficar atento, principalmente na hora de descartar seus resíduos na praça de alimentação, verificando se eles são feitos de isopor, alumínio, ou papel e não deixando que estes materiais se contaminem com restos de líquidos e restos de comida.
O consumidor também deve utilizar o mínimo de embalagens plásticas possível em suas compras, priorizando sempre o uso das sacolas de papel, ou de produtos recicláveis.

AU: O senhor pode citar o exemplo de algum shopping que aplicou práticas sustentáveis com sucesso?
Matarazzo: O Shopping Frei Caneca, de São Paulo, é um bom exemplo porque neutraliza 100% de suas emissões de gases de efeito estufa. Ali, foi traçado um plano de redução com coleta seletiva, reúso de água e redução do consumo de energia, com a aquisição de equipamentos que consomem menos energia elétrica. Mas um grande diferencial do Frei Caneca foi a instalação do telhado verde, que reduziu em até 30% o uso de ar condicionado. Trata-se de uma grama que é plantada sobre o telhado e pode ser feita em casas, prédios e outros edifícios num declive de até 45 graus. O telhado verde inibe a passagem do calor do sol, evitando que a temperatura da laje aumente e pode reduzir a temperatura interna do imóvel em até 40%.
Veja como isso é importante, pois é a natureza trabalhando a nosso favor. Nós estamos destruindo a natureza quando na verdade deveríamos ser aliados dela.  

AU: O senhor esteve presente na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-15) no ano passado. Qual foi o seu papel e que impressões ficaram do encontro?
Matarazzo: Eu recebi os títulos de chanceler e de embaixador das Águas para o Brasil, respectivamente pelo IBDN (Instituto Brasileiro de Defesa da Natureza) e pelo Instituto Gigantes da Ecologia, ligado à Unesco. Por isso, fui convidado a participar da COP-15. Mas eu achei que o encontro foi mais uma rodada de negócios do que um pré-acordo sobre as emissões de gases de efeito estufa pelos países participantes. Cada país jogava a responsabilidade para o outro, no melhor estilo “toma que o filho é teu”. Eu não trouxe nada de positivo do encontro para os meus projetos e acredito que esses encontros devem deixar de ser uma rodada de negócios para ser uma reunião pela salvação do planeta. Vale lembrar que o planeta não vai acabar, mas que quem irá acabar seremos nós. 

AU: Em sua opinião, o que o ser humano pode fazer no sentido de melhorar sua existência no planeta?
Matarazzo: Aquecimento global, para mim, ainda é uma questão moral. E somente a mudança de hábitos e costumes pode fazer com que a situação atual se reverta. Eu sei que estão implantando a educação ambiental nas escolas, mas os resultados no comportamento ambiental dessas crianças só será colhido daqui a 15 ou 20 anos. Já a mudança de hábitos e costumes pode ser imediata. Basta que as pessoas entendam qual é o tamanho do buraco em que estamos metidos, consumindo três a quatro vezes mais recursos do que o planeta suporta. 

 

 

 

 



Publicado em: 26/4/2010

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