
Aos 83 anos, o médico Suetoshi Takashima é um homem que cultiva o sentimento de dever cumprido com razão. Filho de imigrantes japoneses, ele veio para o Brasil aos quatro anos e foi criado pelos pais, com poucos recursos, numa cidade do interior de São Paulo. Obstinado e apaixonado pelos estudos desde a infância, Takashima enfrentou as muitas adversidades antes de se formar como médico e, dez anos depois, tornou-se um dos fundadores do Hospital e Maternidade Brasil, instalado em Santo André, no Grande ABC.
Hoje, já aposentado, ele comemora os 40 anos do hospital que ajudou a construir sabendo que deixou para as futuras gerações um hospital que inaugurou o conceito de hotelaria hospitalar no Brasil e que é padrão “A” de qualidade no País, sendo considerado o melhor e mais bem equipado centro de saúde do interior do Estado.
Ambiente Urbano: O senhor nasceu no Japão, mas como chegou e por que sua família decidiu vir para o Brasil?
Suetoshi Takashima: Eu nasci em 1927 e vim para o Brasil aos quatro anos, em 1931. O Japão enfrentava uma forte crise naquela época e muitos japoneses passaram a migrar para trabalhar nas plantações de café do Brasil. Meu pai era comerciante e decidiu trazer a família nessa época com o objetivo de enriquecer e voltar para o Japão. Diferente da maioria dos imigrantes, nossa família foi trabalhar no sítio de um parente que já tinha adquirido terras aqui. Eu cresci em Álvares Machado, na região da Alta Sorocabana, no interior de São Paulo, e como eu era o caçula, não fui trabalhar na roça como meus irmãos. Frequentei o grupo escolar da cidade, e eu ia sozinho a pé do sítio até a escola todos os dias. Tinha apenas cinco anos.
AU: Deve ter sido uma infância difícil.
Takashima: Foi sim. Fiz o ginásio em Presidente Prudente e, além da caminhada até Álvares Machado, eu ainda pegava o trem para ir à escola. Um dia, a ponte que ligava as duas cidades quebrou e eu fui a pé de casa até Presidente Prudente, viajando por 12 km. Quando concluí o ginásio, meus pais decidiram que eu não precisava mais estudar e que eu deveria ajudá-los na roça. Aceitei a decisão, mas um senhor que era amigo da família convenceu meu pai de que eu era esforçado e que deveria continuar os estudos. Fiquei dois anos sem estudar antes de começar o colegial.
AU: E como surgiu essa vontade de ser médico?
Takashima: Foi no segundo colegial, quando eu li o livro Olhai os lírios do campo, do Érico Veríssimo. Fala sobre a vida de um médico, e eu fiquei encantado pela profissão de médico. Mas como as escolas do interior naquela época eram muito fracas, eu me mudei para São Paulo para concluir o terceiro colegial e prestar vestibular. Eu sempre estudei em escola pública e só depois do colegial é que estudei em um cursinho particular. Meus pais já tinham uma situação melhor, mas mesmo assim era muito caro me manter na capital. Naquele ano eu me dediquei dia e noite aos estudos. Só existiam duas faculdades de Medicina em São Paulo, a USP e a Unifesp, e se eu não passasse no vestibular perderia um ano inteiro. No final daquele ano, eu prestei e passei em quinto lugar no vestibular da USP, disputando com mais de 500 candidatos para 80 vagas.
AU: O senhor tem uma história muito bonita. Um imigrante, criado no interior sem muitos recursos, e que hoje é um dos donos de um grande hospital. Como surgiu essa oportunidade de fundar o Hospital Brasil?
Takashima: Foi em 1966, dez anos depois de me formar. Eu já morava em Santo André e trabalhava na Santa Casa de Misericórdia do município. Eu e um grupo de oito médicos da cidade concordávamos de que a região carecia de um hospital de referência, com o mesmo padrão de qualidade dos grandes hospitais da capital. E foi esse sonho que nos uniu. Nós não tínhamos dinheiro para investir e a única solução foi pedir um empréstimo. Fomos apresentados ao presidente da Caixa Econômica Federal que, para nossa surpresa, era o senhor Paulo Maluf, político famoso já naquela época. Pedimos um empréstimo de NCr$ 500 mil (quinhentos mil cruzeiros novos) para iniciar a construção do hospital, mas ele nos incentivou a emprestar NCr$ 1 milhão. Tínhamos receio de assumir uma dívida como esta, mas sabíamos que faríamos mais e melhor com esse dinheiro. E então, com muita dedicação de todos, cada um hipotecou sua casa como garantia do pagamento da dívida. Começamos a construção do hospital, que durou quatro anos, começando apenas com dois andares, dos quais só ativamos o térreo. Em homenagem ao povo de Santo André, decidimos inaugurar o hospital na data de aniversário da cidade, 8 de abril de 1970.
AU: Nestes quarenta anos, o que mais marcou para o senhor na história do Hospital e Maternidade Brasil?
Takashima: Nosso hospital inaugurou o conceito de hotelaria hospitalar no Brasil e isso atraiu diretores de hospitais do país inteiro na época. Além disso, nós nos preocupamos em criar um hospital equipado com tecnologia de primeira e com um alto padrão de qualidade no atendimento. Esse reconhecimento veio em 2001, quando a ANAHP - Associação Nacional dos Hospitais Privados - concedeu padrão “A” de qualidade ao Hospital Brasil. Hoje, cerca de 10 mil pessoas circulam diariamente pelo nosso hospital. Realizamos cerca de 1,5 mil consultas por dia e posso garantir, com toda a certeza, de que este é atualmente o melhor e mais bem equipado hospital do interior do Estado. Isso para mim é a realização de um sonho, a certeza do dever cumprido, enquanto pessoa e profissional.
AU: Além do padrão de qualidade, o Hospital Brasil mantém também programas socioambientais?
Takashima: Sim. Desde sua fundação, o Hospital Brasil mantém projetos que beneficiam a comunidade em parceria com diversas entidades assistenciais. Dentre elas, posso destacar a parceria com a CLASA – Casa Lions da Adolescente de Santo André – que já dura 35 anos e que gera formação profissional e inclusão no mercado de trabalho para adolescentes. Na área ambiental, o hospital mantém programas de descarte adequado de resíduos e que são acompanhados por uma comissão multidisciplinar do hospital. Fazemos o descarte correto de resíduos orgânicos, infectantes, radiológicos, ácidos, quimioterápicos, assim como de lâmpadas, pilhas, óleo vegetal usado, embalagens TetraPak, colchões e tecidos.