
Moacir Gadotti é um dos mais importantes educadores e pensadores para a revolução educacional. Discípulo de Paulo Freire, de quem foi amigo pessoal, Gadotti dá continuidade às ideias libertárias por ele defendidas e que propõem uma educação que não só seja livre, mas, principalmente, que acabe com a opressão, com a miséria, a intolerância e tantas outras mazelas que impedem os seres humanos de terem uma vida justa. Nesta entrevista, Gadotti fala da inserção da sustentabilidade nos sistemas educacionais e de como os educadores podem aproveitar esses conceitos para promover uma grande renovação nos sistemas de ensino do Brasil.
Ambiente Urbano: O que é uma sociedade sustentável?
Moacir Gadotti: A sustentabilidade é um desejo humano fundamental de bem-viver. O conceito de sustentabilidade tem origem na biologia: é o equilíbrio entre os seres vivos e a vida. Depois, esse conceito passou para a ecologia, a economia, e finalmente chegou à educação. É uma grande oportunidade para a renovação dos sistemas de ensino, já que os sistemas atuais são baseados em uma visão predatória e não equilibrada na relação entre ser humano e Natureza.
AU: Como a escola pode contribuir para a formação de uma sociedade mais sustentável?
Gadotti: A escola é produto e fator de uma sociedade, ou seja, ela produz a sociedade e a sociedade também produz a escola. Neste caso, a escola pode promover, por exemplo, uma "ecoauditoria" para verificar o que é insustentável dentro da escola. Este é um tipo de atividade que desperta muito o interesse dos alunos e, rapidamente, todos vão identificar na escola o que pode ser melhorado e mudado, seja com relação aos resíduos ou ao consumo de materiais, como o papel, por exemplo. Eu costumo dizer que o maior problema da educação ambiental, por exemplo, não são as florestas ou os mares, mas sim o ambiente urbano. É lá que está o maior problema de sustentabilidade hoje e a escola, se ela puder se transformar, ela também vai ajudar a transformar a sociedade.
AU: Qual a diferença entre a ecopedagogia e o sistema clássico de ensino?
Gadotti: Os paradigmas que orientaram o nascimento da escola, que são os paradigmas clássicos, vêm da época do industrialismo. O próprio Marx caiu na armadilha do industrialismo, já que, naquela época, o tema ecologia não tinha o mesmo desdobramento que se tem hoje. Esses paradigmas que criaram o capitalismo, que é um sistema completamente insustentável, geraram uma sociedade insustentável. O motor do capitalismo é o lucro, acima de qualquer outro valor; então, se hoje você quiser definir a sustentabilidade, a melhor forma é definir a partir do que não é sustentável.
AU: Então, o que não é sustentável hoje?
Gadotti: É a guerra, a fome, a miséria, o trânsito urbano e tudo mais que oprime o ser humano. A sustentabilidade tem a ver com uma sociedade idealizada, mas isso não significa que essa sociedade seja única. Eu acho que nós superamos os paradigmas clássicos, que nos ofereciam apenas como opção o capitalismo ou o socialismo. Hoje, os novos paradigmas holísticos se sustentam na ideia da pluralidade de mundos possíveis, que nos dá a possibilidade de construirmos o nosso modo de vida, de produzir e reproduzir a nossa existência. Eu fiquei muito feliz quando, no final de 2008, o Equador incluiu em sua Constituição que o seu modo de desenvolvimento não seria o capitalista, mas um modo de desenvolvimento chamado de bem-estar, ou bem-viver, um conceito inspirado na cultura indígena. É muito interessante que isso ocorra agora porque as culturas ancestrais nos trazem valores extraordinários. Enquanto o eurocentrismo trouxe para nós a dicotomia entre o natural e o humano, entre a cultura e a natureza, as culturas indígenas mostram que o ser humano é parte da Natureza.
AU: A Carta da Terra seria um caminho para as escolas trabalharem e transmitirem aos alunos esses conceitos de integração do ser humano com a Terra?
Gadotti: A Carta da Terra e o Tratado de Educação Ambiental, que nasceram juntos na Rio-92 - e eu tive a felicidade de participar da primeira redação dos dois documentos - apesar das grandes finidades político-ideológicas que apresentam entre si, são documentos que têm diferenças fundamentais, principalmente no que se refere ao Tratado de Educação Ambiental. Apesar de serem datados, esses documentos são de grande atualidade, pois servem de orientação para os educadores, sobretudo para os que trabalham com a educação ambiental. A Carta da Terra é um código de ética planetário e só foi concluída oito anos depois da primeira redação. Hoje, esta carta incorpora os direitos humanos com os direitos da Mãe Terra, este organismo vivo e em evolução, que é a própria Terra. Eu tenho absoluta convicção de que, em todos os lugares onde esta carta for adotada, haverá uma contribuição muito grande para a renovação do projeto que eu chamo de ecopolítico-pedagógico.
AU: No seu livro Educar para a Sustentabilidade, o senhor cita alguns exemplos de boas práticas de países da Europa que adotam um sistema de ensino focado na questão ambiental, como o caso da Rede Húngara de Ecoescolas. O senhor acredita que o nosso país está preparado para receber um ensino como este?
Gadotti: Esta rede não está só na Europa e dela participam também países da América Latina. Eu conheço uma escola aqui na Zona Oeste [da Cidade de São Paulo], por exemplo, que tem um diretor que defendeu uma tese sobre ecopedagogia na PUC e hoje aplica nesta escola tudo o que ele aprendeu na universidade quando fez a tese.
AU: Quais os resultados dessas experiências?
Gadotti: O primeiro resultado é a instituição de uma cultura de paz. Neste local se faz a Carta da Terra da escola, na qual as próprias crianças definem o seu comportamento em uma declaração de amor à Terra. O processo de construção é muito bonito porque as crianças passam a ter uma relação profunda com a terra em si e não só com o planeta Terra. E eu acho que a escola fez um trabalho contrário. Ao invés de unir as crianças à terra, ela as separa, pois aprendemos que a terra é suja, que devemos ficar longe do mato, enfim. Eu sou filho de trabalhadores rurais, minha escola foi a escola rural, e esta relação profunda com a Mãe Terra para mim vem de berço. Então, cheirar a terra, subir em árvores, deitar na grama, é algo que faz parte da minha vida até hoje e, para mim, este é um valor fundamental que está ligado à liberdade, à paz. Você planta a paz quando as pessoas participam, quando se declaram amorosas à Terra, que é a nossa mãe. A sustentabilidade possui uma dimensão ecológica, que está diretamente relacionada à Natureza, mas também tem uma dimensão social, que tem a ver com a cultura e com o bem-viver. Normalmente, as pessoas se esquecem que sustentabilidade tem essas duas grandes dimensões. E a educação pode unir tudo isso e fazer um ótimo trabalho.
AU: Na sua opinião, o homem urbano perdeu a sua conexão com a terra?
Gadotti: Eu acredito que a gente nunca perde esta conexão, mas abafa. Nós somos seres da terra, voltaremos à terra e seremos terra sempre. Aliás, humano, no fundo, vem de húmus, e está em nosso princípio antropológico, antológico, sermos terra. O que a educação urbana tem feito, baseado neste paradigma clássico da educação, é realmente separar [o homem da terra]. E o [Jean-Jacques] Rousseau, que para mim foi um grande mestre, dizia que, o dia em que o ser humano se separar da natureza, ele desaparecerá. E isso não significa só deixar de fazer uma visita a um jardim. Nós deixamos de observar a terra, de observar as árvores e tudo o que está ao nosso redor. E nos falta cultivar essa sensibilidade.
AU: A escola poderia despertar as pessoas para esse olhar e por que não o faz?
Gadotti: A escola capitalista que temos forma pessoas para competir com outros seres humanos e não para a solidariedade, não com este olhar. Em 2008, nós celebramos os quarenta anos da Pedagogia do Oprimido e, se Paulo Freire estivesse vivo, hoje escreveria mais um capítulo dessa pedagogia, que é a pedagogia da Terra como um grande oprimido, como o maior de todos os oprimidos. Quando eu escrevi Educar para a Sustentabilidade, que é um relato de muito tempo de reflexão, foi para chamar a atenção para que nós façamos a construção de nossa educação a partir de um outro paradigma, a partir do paradigma Terra, vendo-a não somente como um fenômeno astronômico, mas como um fenômeno histórico, social, e enxergando a necessidade de nos reequilibrarmos com a natureza. (Fonte: Revista Ambiente Urbano)