Revista Ambiente Urbano - Ano 3 - nº26 - Junho de 2008
Escrito por Fernanda Correia
Vivendo no LIMITE!
Se enfileirada, toda a frota de mais de seis milhões de veículos que circula hoje pela cidade de São Paulo seria quase suficiente para dar uma volta na Terra, que tem cerca de 40 mil quilômetros de circunferência.
Via Anchieta, quatro e quinze da tarde. Estou a caminho de São Paulo quando me deparo com um congestionamento local de, pelo menos, seis quilômetros. A fila interminável de caminhões e automóveis sinaliza: o trajeto não será percorrido em menos de uma hora...
Cenas como esta estão virando rotina na vida dos motoristas que circulam na Região Metropolitana de São Paulo. O aumento da frota de veículos e da circulação de caminhões vem tornando a mobilidade na maior cidade da América do Sul num verdadeiro exercício de paciência. E, se nada for feito, as estatísticas mostram que a tendência é piorar. O censo realizado em 2000 revela que São Paulo já tinha mais carros do que casas. De acordo com o Detran, a cidade de São Paulo ganha cerca de mil veículos novos por dia e, para acolher todos estes veículos, seria necessária a construção de novas avenidas. Como isso é impossível, já que as cidades não têm mais condições de expandir-se tanto, o caminho é a imposição de restrições ao uso do automóvel nas grandes cidades.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) estima que este ano as vendas de veículos tenham um crescimento de 24,2% com relação ao ano passado, equivalente a 3,060 milhões de unidades. No entanto, se a economia vê esse crescimento como saudável para o País, ele pode representar problemas para a saúde e mobilidade da população.
Resultados da pesquisa Indicadores do Desenvolvimento Sustentável Brasil 2008, divulgados no último mês, mostram que os maiores causadores da poluição atmosférica no Brasil não são mais as indústrias, como foi no passado, mas os veículos automotores. Isso significa que, se essas vendas se concretizarem, a qualidade do ar tende a piorar muito, principalmente por conta da grande quantidade de gás ozônio que os veículos emitem e que se concentra mais na parte baixa da atmosfera, prejudicando a saúde da população.
Como resolver?
Há onze anos, a cidade de São Paulo implementou o rodízio municipal de veículos, visando reduzir os crescentes índices de congestionamentos observados nas principais vias da cidade durante os períodos de maior demanda - entre 7 e 10h da manhã e entre as 17 e 20 h. De acordo com o Departamento de Imprensa da CET,o rodízio nos horários de pico é realmente indispensável para a fluidez do tráfego na Capital, pois, nestes períodos, são cerca de 20% da frota da cidade a menos circulando no centro expandido, o que contribui para reduzir a lentidão em aproximadamente 8% nos horários mais críticos.
O rodízio de veículos é uma das medidas adotadas para melhorar a situação do trânsito nas cidades. No primeiro semestre deste ano, a Prefeitura de São Paulo realizou algumas obras emergenciais para melhorar o fluxo de veículos na cidade, recuperando corredores de ônibus, modificando sinalizações, criando rotas alternativas, mas, ainda assim, é preciso muito planejamento e mais investimentos para que a cidade saia do sufoco. E o transporte público certamente é um dos caminhos para isso. O presidente da SuperVia - Concessionária de Transporte Ferroviário S/A -, Amin Alves Murad, diz que as regiões metropolitanas precisam de um transporte que seja de alta capacidade e que diminua o impacto no meio ambiente. "Neste cenário, o transporte sobre trilhos precisa ser repensado e resgatado como uma alternativa viável para o desenvolvimento e implantação nestas regiões". Apesar de acreditar no crescimento dos transportes sobre trilhos nas cidades, Murad conta que ainda existem alguns desafios que precisam ser superados: "redução das tarifas de energia elétrica; definição de uma política de financiamento para implantação e constante atualização tecnológica dos sistemas; alteração da legislação das municipalidades de modo a permitir o uso do espaço aéreo das estações para a realização de empreendimentos comerciais; e permitir que as empresas concessionárias de transporte sobre trilhos também possam, por concessão, operar sistemas sobre pneus".
Para o mestre em Economia, Carlos Magno, o caminho para a melhoria do trânsito nas cidades é a racionalização no uso do automóvel. Ele compara esta racionalização à mesma que tivemos com relação ao uso da água. Se passarmos a fazer uso do automóvel com mais consciência, não só o trânsito, mas também a qualidade do ar melhorarão muito, pois, mesmo que haja transporte público de qualidade disponível a todos, se as pessoas não modificarem seus hábitos, abrindo mão do transporte individual, nunca conseguiremos atingir um panorama satisfatório de sobrevivência nas cidades.
Todos Perdem
O problema dos congestionamentos nas grandes cidades pode causar prejuízos também à economia do País. O fato de a infra-estrutura viária não ser capaz de acompanhar o aumento da quantidade de veículos em circulação, acaba interferindo também em seu processo de desenvolvimento.
O tempo que se perde no trânsito, o combustível desperdiçado, o atraso na chegada ao trabalho, tudo isso causa prejuízos à produtividade do País. Sem contar o cansaço e o estresse - que quase sempre acompanha quem é obrigado a enfrentar o congestionamento e também quem utiliza os transportes públicos -, os danos ambientais e os inúmeros acidentes diários. No ano passado, a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) divulgou que os custos anuais de acidentes de trânsito no Brasil ficam em torno de R$ 28 bilhões, dinheiro que poderia ser investido na saúde, na educação, ou seja, em melhorias para a própria sociedade. Outro problema relacionado ao grande volume de veículos nas ruas é que as cidades acabam sendo adaptadas para os carros e o espaço para a convivência social é cada vez mais reduzido. Atualmente, muitas são as discussões para buscar alternativas que mudem essa realidade. Especialistas de trânsito falam sobre limitar os horários de entrega de carga e descarga - para que a circulação de caminhões na cidade seja restrita -, ou então sobre criar um pedágio urbano, seguindo o exemplo de Londres, que implantou a medida para reduzir o uso de veículos no centro da cidade. Enfim, são idéias em debate para que se encontre a melhor saída para uma questão complexa.
Alternativa
Enquanto isso, algumas ações vão sendo criadas para melhorar os impactos do trânsito, como é o caso do MelhorAr, um projeto desenvolvido pela agência de comunicação Believe e pela empresa de TI Wise Business. O programa tem como objetivo estimular a carona solidária e o voluntariado, incentivando as pessoas que trabalham em uma mesma empresa a compartilharem da carona.
As empresas interessadas em participar se cadastram gratuitamente no site do projeto www.projetomelhorar.com.br e recebem um login e uma senha, que devem ser passados aos funcionários que desejarem oferecer ou pedir carona. Ao se inserir no programa, o usuário (que possuir ou não um carro) cria um perfil completo com seus dados pessoais, suas preferências e os dias e horários que pode oferecer ou receber carona. Em seguida, o sistema cria o trajeto que o motorista faz e mostra as pessoas que estão próximas deste percurso e que gostariam de receber carona. O motorista tem acesso ao perfil de cada uma delas e pode escolher para quem a carona será concedida.
Além disso, o site também calcula a quantidade de CO2 que o motorista deixou de emitir por participar do projeto e orienta sobre as melhores formas de neutralizar as emissões inevitáveis.